...
Respira outra vez o mundo
chora águas pesadas de poeira
desde lajes altas da cidade
até o baobá solitário do morro acimentado
e a lavoura de café é seca nessa parte do ano
sementes e aromas transportados pelo atlântico
vida e sonhos desenhados nas cores improvisadas
desmontados nos blocos fracos da umidade
...
Respira outra vez o mundo
nasce o sol quente nas vidraças coloridas
cheios de adesivos centenários desbotados
ilumina a piscina no asfalto lavado
crianças vestidas jogam pelada
e suas peles se misturam com as cores da lama
Corre o choro diarréico pelos córregos estreitos
abertos a céu fechado brota árvores nas suas bordas
vidas e culturas se alimentam de suas hortas
o pranto encontra as artérias entupidas do rio que corta a cidade
...
Respira outra vez o mundo
nasce em flor e vapor a chuva ácida que lavou as casas
morros, ruas, avenidas, prédios, viadutos
ainda sujos de nojo, corrupção, desumanização
em alimento vence o infortúnio na pele da terra
os pedaços andantes dos seres ambulantes
sustentando força das ideias e dos amores
crescem, criam, sonham, lutam, ganham
pensam que plantam quando jogam a bituca na calçada
sonham que colhem o que compram no supermercado
com o seu dinheiro, não roubado
já foi sonegado em demasia
impostos, sossego, tempo de alegria
agora não quer mais pensar, só dormir para o outro dia
que respira mais uma vez a sua vida.
...
[ensaio sobre a saudade]
domingo, 26 de fevereiro de 2012
sábado, 28 de janeiro de 2012
desconstrução
São Paulo
na praça do meio
entre o Jd. São Bento e o Jd. Jangadeiro
Uma garota com uma revista
conversava sem palavras com as árvores enraizadas
em uma terra multicolor.
As pipas desenhavam no céu
a dança de uma inocente infância
que já não tinha mais verão.
Os olhos já eram as folhas e a fumaça
mais uma perdida na multidão
do povo que dorme no morro e trabalha no mercadão
central, municipal, cultural
o povo é tudo isso e nem sabe que é.
Mais uma blayser negra desce a curva fechada do capão
quem sabe o que é a quebrada não se veste de urubu
são eles vigiando o que é de todos
um museu ao céu aberto de restos que viraram casas de sonhos
pra só mais uma tentativa de ser um ser
já que tudo foi sempre assim.
O céu raiava as estrelas de trovôes que agora só sussuram
o desespero de uma vida sem saída
Morre mais um no morro. E o que isso significa?
São paulo, 23 de Janeiro de 2012
Polícia encontra suspeito de tráfico de drogas
A operação cracolândia é um sucesso! Segundo a pesquisa da páginadata, o narcotráfico na cidade de São Paulo foi reduzido em 7 por cento a mais comparado ao mesmo mês de janeiro do ano anterior.
Mais tráfico de dinheiro, de informação
que é só mais um descanso de retina
a revista super interessante só tem ideias desinformantes
e continua na mão daquela menina
que procura no dicionário a palavra biqueira.
na praça do meio
entre o Jd. São Bento e o Jd. Jangadeiro
Uma garota com uma revista
conversava sem palavras com as árvores enraizadas
em uma terra multicolor.
As pipas desenhavam no céu
a dança de uma inocente infância
que já não tinha mais verão.
Os olhos já eram as folhas e a fumaça
mais uma perdida na multidão
do povo que dorme no morro e trabalha no mercadão
central, municipal, cultural
o povo é tudo isso e nem sabe que é.
Mais uma blayser negra desce a curva fechada do capão
quem sabe o que é a quebrada não se veste de urubu
são eles vigiando o que é de todos
um museu ao céu aberto de restos que viraram casas de sonhos
pra só mais uma tentativa de ser um ser
já que tudo foi sempre assim.
O céu raiava as estrelas de trovôes que agora só sussuram
o desespero de uma vida sem saída
Morre mais um no morro. E o que isso significa?
São paulo, 23 de Janeiro de 2012
Polícia encontra suspeito de tráfico de drogas
A operação cracolândia é um sucesso! Segundo a pesquisa da páginadata, o narcotráfico na cidade de São Paulo foi reduzido em 7 por cento a mais comparado ao mesmo mês de janeiro do ano anterior.
Mais tráfico de dinheiro, de informação
que é só mais um descanso de retina
a revista super interessante só tem ideias desinformantes
e continua na mão daquela menina
que procura no dicionário a palavra biqueira.
quinta-feira, 12 de janeiro de 2012
domingo, 18 de dezembro de 2011
Flores Mortas
Tocam os sinos da catedral
metem-se pelas portas metálicas
o conglomerado de corpos amontoados
nos vagões do coração dilacerado paulistano
Pulsam no suor do cansaço
a velocidade dos compromissos cumpridos ou atrasados
de mais um dia fatídico dos trabalhos mal pagos
Pelas artérias mecânicas transportados
até às células submersasno mais improváveis lares periféricos
são todos muitos: Pais, empregados, filhos e padrastos
presos no olhar extasiado dos sonhos estagnados
Olhos que adormecem abertos
não se pode passar da estação
só acordam com o novo anúncio da mais nova cerveja na televisão
São o sangue, a força, as pedras de toda essa selva
que não se permitem mais quebrar vidraças
porque as letras do anúncio indicam o proibido
não fumar, não beber, não pensar
e se quebram as regras, se tornam grãos oprimidos
caçados e propinados com nome de bandido pobre analfabeto bárbaro
bloqueados pelo braço repressor do estado
que só quer proteger a sociedade do descontrole irracional
gerado pela dor do grito do ser racional
Já passou das 10 e a novela acabou
resta o sono dos músculos desajustados
a cama precisa ser trocada, à prestação
mas nem o mínimo se pode tirar do salário
que nem engorda mais o caldo do feijão
metem-se pelas portas metálicas
o conglomerado de corpos amontoados
nos vagões do coração dilacerado paulistano
Pulsam no suor do cansaço
a velocidade dos compromissos cumpridos ou atrasados
de mais um dia fatídico dos trabalhos mal pagos
Pelas artérias mecânicas transportados
até às células submersasno mais improváveis lares periféricos
são todos muitos: Pais, empregados, filhos e padrastos
presos no olhar extasiado dos sonhos estagnados
Olhos que adormecem abertos
não se pode passar da estação
só acordam com o novo anúncio da mais nova cerveja na televisão
São o sangue, a força, as pedras de toda essa selva
que não se permitem mais quebrar vidraças
porque as letras do anúncio indicam o proibido
não fumar, não beber, não pensar
e se quebram as regras, se tornam grãos oprimidos
caçados e propinados com nome de bandido pobre analfabeto bárbaro
bloqueados pelo braço repressor do estado
que só quer proteger a sociedade do descontrole irracional
gerado pela dor do grito do ser racional
Já passou das 10 e a novela acabou
resta o sono dos músculos desajustados
a cama precisa ser trocada, à prestação
mas nem o mínimo se pode tirar do salário
que nem engorda mais o caldo do feijão
quarta-feira, 26 de outubro de 2011
Vida e Morte Periferia
- Hoje eu matei um maluco lá no morro
Foi a mando do dono do torro
Cheguei na quebrada às 5 da tarde
Esperei o mané na calçada do portão da casa dele
A arma na cintura, 3 balas só
Abriu a porta, o dito cujo e a sua guria
e eu cheirado com a missão nas pupilas
a mão fria, apontou o cano na testa do mano
o gatilho estourou 3 bomba
na testa, na boca, no peito
a menina corre e tropeça no medo
o cara caiu que nem bosta no jardim da própria casa jorrando sangue pela cara
suspirou, tremeu, virou as retinas para ver sua menina
só escutou o choro do seu nome
os olhos apagaram abertos a vida.
Agora to aqui fumando um beck com os manos
nada melhor que tá no sossego de casa
meus corre da semana que vem tá empacotado
garantido a grana do mês pra larica, o pó e o cigarro
Deus me livre de sair da minha quebrada
aqui tenho os brow, o trampo, o lar e a rapaziada.
Foi a mando do dono do torro
Cheguei na quebrada às 5 da tarde
Esperei o mané na calçada do portão da casa dele
A arma na cintura, 3 balas só
Abriu a porta, o dito cujo e a sua guria
e eu cheirado com a missão nas pupilas
a mão fria, apontou o cano na testa do mano
o gatilho estourou 3 bomba
na testa, na boca, no peito
a menina corre e tropeça no medo
o cara caiu que nem bosta no jardim da própria casa jorrando sangue pela cara
suspirou, tremeu, virou as retinas para ver sua menina
só escutou o choro do seu nome
os olhos apagaram abertos a vida.
Agora to aqui fumando um beck com os manos
nada melhor que tá no sossego de casa
meus corre da semana que vem tá empacotado
garantido a grana do mês pra larica, o pó e o cigarro
Deus me livre de sair da minha quebrada
aqui tenho os brow, o trampo, o lar e a rapaziada.
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Os ecos do não
Naquela ponta do morro
era a quebrada do torto
quebravam sonhos de eras
pela cabeça do dono
daqueles males da noite
caladas na bala e na brasa
rolavam dos morros os corpos
despedaçavam em desgraça
Naquela ponta do morro
criança tonta na cola
não dança amarelinha
não quer mais jogar bola
é na esquina que brinca
passando a noite na bica
e troca o cerol da pipa
pela carreira branquinha
Naquela ponta do morro
polícia cola no muro
passa a mão na propina
limpa a sola no buxo
saca a arma na testa
esfaqueia o mamilo
atira a bala no pé
come o cu do bandido
O dia nasceu
e o rap mandou a gíria na rima
a voz do samba
canta a letra no pé da menina
explode a marginal arte
do funk na lage
a ginga de muitas
que sonham ser a mais que bonita
e no calçadão quer o macho do um milhão
Na Ipanema tomar sol, vida de cinema
Outra faceta dessa farsa mal ensaiada
dos pobres sem um tustão, os ecos do não
o nada na democracia capitalizada.
era a quebrada do torto
quebravam sonhos de eras
pela cabeça do dono
daqueles males da noite
caladas na bala e na brasa
rolavam dos morros os corpos
despedaçavam em desgraça
Naquela ponta do morro
criança tonta na cola
não dança amarelinha
não quer mais jogar bola
é na esquina que brinca
passando a noite na bica
e troca o cerol da pipa
pela carreira branquinha
Naquela ponta do morro
polícia cola no muro
passa a mão na propina
limpa a sola no buxo
saca a arma na testa
esfaqueia o mamilo
atira a bala no pé
come o cu do bandido
O dia nasceu
e o rap mandou a gíria na rima
a voz do samba
canta a letra no pé da menina
explode a marginal arte
do funk na lage
a ginga de muitas
que sonham ser a mais que bonita
e no calçadão quer o macho do um milhão
Na Ipanema tomar sol, vida de cinema
Outra faceta dessa farsa mal ensaiada
dos pobres sem um tustão, os ecos do não
o nada na democracia capitalizada.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
Fragmentos dos nossos tempos
De tudo ao nosso redor
O mundo nos faz míseros aprendizes novatos do tempo.
A vida desenhada nos encantos dos instantes
em um trajeto sem parada para os filósofos do presente.
Passamos e não temos tempo de cair na profundidade de nossas pegadas manchadas
nesse lamaçal de contentamentos.
Nossos corpos,
partes vitoriosas de àtomos que decidiram seguir o rumo das intolerâncias do mundo
Nossos menbros,
pedaços de terra que decidiram sair andando e, que um dia,
fatigados de tanta farsa dessa vida de ser pensante,
dissolverão nos mares contingentes de lixo orgânico.
Os pensamentos desvairados da revolução já foram impregnados pela nicotina barata do comodismo
Istala-se no fluxo de consciência
um amontoado de informações recortadas do jornal do dia seguinte
a previsibilidade nos intedia
e a notícia do hoje passa,
o dia do mundo envelhece.
A retórica dos políticos agora é o auge do fetiche da perda do pudor
E se discute estética pessoal no planalto central.
O Poeta já não finge mais
Ele é a própria desintegração dos sentimentos mais pueris
Sua pena recita poesia suja no ouvido trêmulo da puta
Sua voz buzina raivosa no vermelho inquisidor do farol fechado
Suas lágrimas escorrem pelos bueiros o corpo do cachorro morto
Até o córrego inundado que corta a cidade.
O ser trágico estraçalha no corpo covarde
as feridas roídas não superadas pela incrédula certitude
de ser o suor do próprio sentir na pele da eternidade
de ser a pulsação da poesia nas vértebras ressoantes do corpo enxuto.
E doa a sua vida pela existência da liberdade
de ser a dor, o amor, o nada e o tudo
que em uma lágrima afoga sua alma nos mares da arte
recalcada pela catarse no choro do palco do mundo.
Os universos que dançam rente aos dedos apaixonados entrelaçados
O infinito cabido no meio centímetro
dos suores, dos pudores e dos desejos comprimidos
os silêncios que cospem discursos gastos
pelo grito rouco dos olhares calejados
que preveem a catástrofe do ser já arrependido.
E metafísicos, seguimos filósofos crendo no direito da escolha.
Quem sabe um dia vejo a via-láctea do lado de fora como um tabuleiro de xadrez...
Ou quem sabe eu possa um dia reduzir o meu eu-poético à circunferência de um átomo radioativo...
De tudo ao nosso redor
O mundo nos faz míseros aprendizes novatos do tempo.
A vida desenhada nos encantos dos instantes
em um trajeto sem parada para os filósofos do presente.
Passamos e não temos tempo de cair na profundidade de nossas pegadas manchadas
nesse lamaçal de contentamentos.
Nossos corpos,
partes vitoriosas de àtomos que decidiram seguir o rumo das intolerâncias do mundo
Nossos menbros,
pedaços de terra que decidiram sair andando e, que um dia,
fatigados de tanta farsa dessa vida de ser pensante,
dissolverão nos mares contingentes de lixo orgânico.
Os pensamentos desvairados da revolução já foram impregnados pela nicotina barata do comodismo
Istala-se no fluxo de consciência
um amontoado de informações recortadas do jornal do dia seguinte
a previsibilidade nos intedia
e a notícia do hoje passa,
o dia do mundo envelhece.
A retórica dos políticos agora é o auge do fetiche da perda do pudor
E se discute estética pessoal no planalto central.
O Poeta já não finge mais
Ele é a própria desintegração dos sentimentos mais pueris
Sua pena recita poesia suja no ouvido trêmulo da puta
Sua voz buzina raivosa no vermelho inquisidor do farol fechado
Suas lágrimas escorrem pelos bueiros o corpo do cachorro morto
Até o córrego inundado que corta a cidade.
O ser trágico estraçalha no corpo covarde
as feridas roídas não superadas pela incrédula certitude
de ser o suor do próprio sentir na pele da eternidade
de ser a pulsação da poesia nas vértebras ressoantes do corpo enxuto.
E doa a sua vida pela existência da liberdade
de ser a dor, o amor, o nada e o tudo
que em uma lágrima afoga sua alma nos mares da arte
recalcada pela catarse no choro do palco do mundo.
Os universos que dançam rente aos dedos apaixonados entrelaçados
O infinito cabido no meio centímetro
dos suores, dos pudores e dos desejos comprimidos
os silêncios que cospem discursos gastos
pelo grito rouco dos olhares calejados
que preveem a catástrofe do ser já arrependido.
E metafísicos, seguimos filósofos crendo no direito da escolha.
Quem sabe um dia vejo a via-láctea do lado de fora como um tabuleiro de xadrez...
Ou quem sabe eu possa um dia reduzir o meu eu-poético à circunferência de um átomo radioativo...
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