quinta-feira, 22 de março de 2012


Será o que é o seu interior
sua mente demente, seu amor
quando perder o intolerável medo
de não ver no espelho
o nariz narciso dos outros
...
desenhos fotocopiados de revista barata.
Então o corpo deixa de parecer
para viver livre de grades:
Tornar-se
o que já é e não pode ver!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Respira outra vez o mundo

...


Respira outra vez o mundo
chora águas pesadas de poeira
desde lajes altas da cidade
até o baobá solitário do morro acimentado
e a lavoura de café é seca nessa parte do ano
sementes e aromas transportados pelo atlântico
vida e sonhos desenhados nas cores improvisadas
desmontados nos blocos fracos da umidade


...


Respira outra vez o mundo
nasce o sol quente nas vidraças coloridas
cheios de adesivos centenários desbotados
ilumina a piscina no asfalto lavado
crianças vestidas jogam pelada
e suas peles se misturam com as cores da lama
Corre o choro diarréico pelos córregos estreitos
abertos a céu fechado brota árvores nas suas bordas
vidas e culturas se alimentam de suas hortas
o pranto encontra as artérias entupidas do rio que corta a cidade


...


Respira outra vez o mundo
nasce em flor e vapor a chuva ácida que lavou as casas
morros, ruas, avenidas, prédios, viadutos
ainda sujos de nojo, corrupção, desumanização
em alimento vence o infortúnio na pele da terra
os pedaços andantes dos seres ambulantes
sustentando força das ideias e dos amores
crescem, criam, sonham, lutam, ganham
pensam que plantam quando jogam a bituca na calçada
sonham que colhem o que compram no supermercado
com o seu dinheiro, não roubado
já foi sonegado em demasia
impostos, sossego, tempo de alegria
agora não quer mais pensar, só dormir para o outro dia
que respira mais uma vez a sua vida.

...

sábado, 28 de janeiro de 2012

desconstrução

São Paulo
na praça do meio
entre o Jd. São Bento e o Jd. Jangadeiro
Uma garota com uma revista
conversava sem palavras com as árvores enraizadas
em uma terra multicolor.
As pipas desenhavam no céu
a dança de uma inocente infância
que já não tinha mais verão.
Os olhos já eram as folhas e a fumaça
mais uma perdida na multidão
do povo que dorme no morro e trabalha no mercadão
central, municipal, cultural
o povo é tudo isso e nem sabe que é.

Mais uma blayser negra desce a curva fechada do capão
quem sabe o que é a quebrada não se veste de urubu
são eles vigiando o que é de todos
um museu ao céu aberto de restos que viraram casas de sonhos
pra só mais uma tentativa de ser um ser
já que tudo foi sempre assim.
O céu raiava as estrelas de trovôes que agora só sussuram
o desespero de uma vida sem saída
Morre mais um no morro. E o que isso significa?

São paulo, 23 de Janeiro de 2012
Polícia encontra suspeito de tráfico de drogas

A operação cracolândia é um sucesso! Segundo a pesquisa da páginadata, o narcotráfico na cidade de São Paulo foi reduzido em 7 por cento a mais comparado ao mesmo mês de janeiro do ano anterior.

Mais tráfico de dinheiro, de informação
que é só mais um descanso de retina
a revista super interessante só tem ideias desinformantes
e continua na mão daquela menina
que procura no dicionário a palavra biqueira.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

domingo, 18 de dezembro de 2011

Flores Mortas

Tocam os sinos da catedral
metem-se pelas portas metálicas
o conglomerado de corpos amontoados
nos vagões do coração dilacerado paulistano
Pulsam no suor do cansaço
a velocidade dos compromissos cumpridos ou atrasados
de mais um dia fatídico dos trabalhos mal pagos
Pelas artérias mecânicas transportados
até às células submersasno mais improváveis lares periféricos
são todos muitos: Pais, empregados, filhos e padrastos
presos no olhar extasiado dos sonhos estagnados
Olhos que adormecem abertos
não se pode passar da estação
só acordam com o novo anúncio da mais nova cerveja na televisão
São o sangue, a força, as pedras de toda essa selva
que não se permitem mais quebrar vidraças
porque as letras do anúncio indicam o proibido
não fumar, não beber, não pensar
e se quebram as regras, se tornam grãos oprimidos
caçados e propinados com nome de bandido pobre analfabeto bárbaro
bloqueados pelo braço repressor do estado
que só quer proteger a sociedade do descontrole irracional
gerado pela dor do grito do ser racional


Já passou das 10 e a novela acabou
resta o sono dos músculos desajustados
a cama precisa ser trocada, à prestação
mas nem o mínimo se pode tirar do salário
que nem engorda mais o caldo do feijão

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Vida e Morte Periferia

- Hoje eu matei um maluco lá no morro
Foi a mando do dono do torro
Cheguei na quebrada às 5 da tarde
Esperei o mané na calçada do portão da casa dele
A arma na cintura, 3 balas só
Abriu a porta, o dito cujo e a sua guria
e eu cheirado com a missão nas pupilas
a mão fria, apontou o cano na testa do mano
o gatilho estourou 3 bomba
na testa, na boca, no peito
a menina corre e tropeça no medo
o cara caiu que nem bosta no jardim da própria casa jorrando sangue pela cara
suspirou, tremeu, virou as retinas para ver sua menina
só escutou o choro do seu nome
os olhos apagaram abertos a vida.

Agora to aqui fumando um beck com os manos
nada melhor que tá no sossego de casa
meus corre da semana que vem tá empacotado
garantido a grana do mês pra larica, o pó e o cigarro
Deus me livre de sair da minha quebrada
aqui tenho os brow, o trampo, o lar e a rapaziada.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Os ecos do não

Naquela ponta do morro
era a quebrada do torto
quebravam sonhos de eras
pela cabeça do dono
daqueles males da noite
caladas na bala e na brasa
rolavam dos morros os corpos
despedaçavam em desgraça
Naquela ponta do morro
criança tonta na cola
não dança amarelinha
não quer mais jogar bola
é na esquina que brinca
passando a noite na bica
e troca o cerol da pipa
pela carreira branquinha
Naquela ponta do morro
polícia cola no muro
passa a mão na propina
limpa a sola no buxo
saca a arma na testa
esfaqueia o mamilo
atira a bala no pé
come o cu do bandido

O dia nasceu
e o rap mandou a gíria na rima
a voz do samba
canta a letra no pé da menina
explode a marginal arte
do funk na lage
a ginga de muitas
que sonham ser a mais que bonita
e no calçadão quer o macho do um milhão
Na Ipanema tomar sol, vida de cinema
Outra faceta dessa farsa mal ensaiada
dos pobres sem um tustão, os ecos do não
o nada na democracia capitalizada.